Palavras, ditas vivas, sentimentos, vivos tambem, um pouco de mim, aqui, para ti que lês, que vês, assim.... Comentários são sujeitos a análise prévia, em face dos abusos cometidos por algumas pessoas.
Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2004
Balbina
Lenta e dengosa, Balbina, gostosa, subia, ronceira no passo, altaneira no porte, aquela calçada de pedras gastas, pedras sábias, de tanto ouvirem.

Voltava da praça, da vida da venda, da venda da vida, pela mão Julião, o seu mais novo, olhar ladino, aquela chama que brilha no olhar de uma criança, pés espreitando das alpergatas gastas, sorriso feliz que qualquer caramelo iluminava.

Na outra mão, a cesta, seu cofre, sua riqueza, algumas bonecas, dois ou três carrinhos que sobraram, que não correram pelas mãos dos meninos, aqueles mesmos que olhavam Julião com desdém.

Lenta e dengosa, Balbina, fina, subia, ao seu jeito a rua da vida, rua que lhe conhecia o passo, de tanto a ver passar, que lhe conhecia o torneado das coxas, firmes de tanto a subir, o seu mais velho, já não lhe dava a mão, mas era um rapagão, jeito dengoso, ar garboso, um mocetão.

Em casa, Jacinto, seu marido eterno, homem de inferno que lhe levava o dinheiro, gastava-o nos sonhos que o alcool lhe dava, vadio, malandro, mas, o seu, o que lhe acariciava o cabelo, lhe tocava a pele, com toques de mel, por vezes de fel, mas, o seu, amante de sempre, eterno marido, o seu.

Num desalinho a casa, Julião bonito saltava para o pai, seu abraço forte, recompensa maior, sua barba áspera acariciava-lhe a pele tenra, homem assim ele queria ser, para já era um menino que se banhava no abraço de seu pai.

Lenta e dengosa, Balbina, bonita, abraçou Jacinto, hoje sem álcool, o olhar distante, vidrado, a garganta presa, as lágrimas que assomavam seus olhos de um azul de mar, quem sabe se de mar revolto ou não. Jacinto abraçou-a, os soluços esmagaram-se no cabelo de Balbina, era a dor que o trespassava, o olhar que já nada via.

Num turbilhão de sentimentos, sem palavras, sem ouvir, Balbina chorava, sem saber porquê, mas o coração apertou-se, a voz calou-se e Balbina chorou.

Lenta e dengosa, Balbina, chorosa, voltou a subir aquela calçada, vergada pela dor, aquela calçada de pedras gastas, molhadas, de lágrimas tantas naquela manhã. Balbina subia, subia sempre, mas seu viver perdera a chama de ser, o viver gostoso, fino e bonito, agora apenas choroso, já nem era viver.

Perdera a quem amava, carne de si, o seu mais velho, mocetão garboso, que a deixara sem sequer avisar. Não podia ser, daria uma boneca a um pobre, um carrinho a um menino, daria a sua vida até, mas perder um filho assim, não, não, mil vezes não, Balbina não aceitou e, naquela tarde, naquela calçada, naquelas pedras, Balbina caiu, ferida de morte, pela dor de seu filho, do seu amor, ter partido sem si.


publicado por PAU_LINDO às 13:43
link do post | favorito

Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

mais sobre mim
pesquisar
 
Dezembro 2006
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

25
26
27
28
29
30

31


posts recentes

Amanhã é Natal ?

Natal, pois...

Resistir

Sagradas

Tristeza

5 anos

Ordens inversas

Olhar

I Love You Very Much...à ...

Eu amo e sei

arquivos

Dezembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

blogs SAPO
subscrever feeds